As bases neuropsicológicas das habilidades sociais: Entenda o processo de estabelecer limites e ser assertivo

As bases neuropsicológicas das habilidades sociais: Entenda o processo de estabelecer limites e ser assertivo

A Neurociência do “Não”: Por que a Assertividade é uma Função Cerebral (e como treiná-la)

Muitas pessoas acreditam que a dificuldade em dizer “não” ou em expressar necessidades de forma clara é apenas um traço de personalidade ou timidez. No entanto, a ciência demonstra que a assertividade é uma competência dependente de processos neuropsicológicos complexos que envolvem o controle de impulsos, a regulação emocional e a leitura do ambiente social. Entender como seu cérebro processa essas interações é o primeiro passo para desenvolver relações mais equilibradas e funcionais.

O que é  assertividade sob a ótica da neuropsicologia?

A assertividade não é um ponto médio entre a passividade e a agressividade; é a capacidade de comunicar pensamentos, sentimentos e limites de maneira direta, honesta e adequada ao contexto, sem violar os direitos alheios. Do ponto de vista cerebral, ser assertivo exige o funcionamento integrado de três pilares principais:

  1. Controle inibitório: A habilidade de frear a resposta automática de agradar a todos (passividade) ou de atacar diante de uma frustração (agressividade).

  2. Monitoramento cognitivo: A capacidade de avaliar o ambiente, entender as intenções do outro e ajustar o tom de voz e as palavras em tempo real.

  3. Regulação da resposta de medo: O gerenciamento da amígdala cerebral, que muitas vezes interpreta o conflito social como uma ameaça física, gerando ansiedade e paralisia.

Por que estabelecer limites é tão desafiador?

Para o cérebro humano, a exclusão social ou a desaprovação de um grupo é processada em áreas similares às da dor física. Quando você sente dificuldade em estabelecer um limite, seu sistema límbico está tentando protegê-lo do que ele percebe como um perigo à sua sobrevivência social. O desafio surge quando essa resposta de proteção se torna disfuncional, impedindo que você proteja seu tempo, sua energia e seus próprios valores. Sem limites claros, o resultado é o acúmulo de estresse crônico, sensação de sobrecarga e prejuízo na autoestima.

O papel das funções executivas na comunicação

As habilidades sociais são consideradas funções executivas de alta complexidade. Para ser assertivo, você precisa de:

  • Flexibilidade cognitiva: Para entender que existem várias formas de resolver um impasse, não apenas a submissão ou a briga.

  • Memória de trabalho: Para manter o foco no seu objetivo principal durante uma conversa difícil, sem se perder em justificativas excessivas ou emoções do momento.

  • Planejamento: Para estruturar o que será dito de forma lógica e coerente.

Como fortalecer sua assertividade?

As habilidades sociais podem ser treinadas e aprimoradas, devido à neuroplasticidade. O cérebro pode aprender novas formas de resposta diante de situações sociais .

1. Identifique os sinais de reatividade

Observe em quais situações você perde a assertividade. É com figuras de autoridade? Com familiares? Identificar o padrão ajuda a antecipar a resposta cerebral de ansiedade.

2. Pratique a pausa cognitiva

Antes de aceitar uma demanda que você não quer ou não pode cumprir, dê tempo para seu córtex pré-frontal atuar. Uma pausa de alguns segundos pode desativar a resposta impulsiva de complacência.

3. Utilize a comunicação direta

Evite rodeios. A assertividade se beneficia da clareza. Use frases na primeira pessoa, como por exemplo: “Eu entendo sua necessidade, mas neste momento não posso me comprometer com esse projeto.”

4. Treinamento de habilidades sociais

A Avaliação Neuropsicológica pode identificar se suas dificuldades sociais estão ligadas a déficits de atenção, alta reatividade emocional ou falhas na percepção social. A partir desse diagnóstico, a reabilitação neuropsicológica ou a psicoterapia utilizam o treinamento de habilidades sociais para criar novos repertórios de comportamento.

Estabelecer limites não é um ato de egoísmo, mas de saúde mental e preservação da funcionalidade. Ao entender as bases biológicas e psicológicas que regem suas interações, você deixa de ser refém de reações automáticas e passa a exercer o controle sobre sua vida social e profissional.

Se você sente que a falta de assertividade tem impactado sua qualidade de vida, o acompanhamento psicológico pode fornecer as ferramentas necessárias para entender estas funções, gerenciar novas formas de enfrentamento e fortalecer a autoconfiança.